sábado, dezembro 02, 2006

Despeço-me

Quem Escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer

num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

António Ramos Rosa

E com este grande Poema deste grande Poeta me despeço.
Um Beijo a todos aqueles que sempre fizeram parte de mim e deste blog.

Sara

domingo, novembro 19, 2006

Callema



Tem lugar na próxima terça-feira, dia 21 de Novembro, pelas 16 horas, no Auditório I da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - U.N.L., a apresentação do primeiro número da revista literária Callema, publicação semestral da responsabilidade da Cooperativa Literária. Na sessão estará presente a Professora Doutora Maria do Rosário Monteiro.
Callema dedica esta sua primeira capa a Yolanda Castaño, nome cimeiro da mais recente poesia galega.


www.cooperativaliteraria.net




segunda-feira, novembro 06, 2006

Parabola



We barely remember, who or what came before this precious moment.
We are choosing to be here, right now. Hold on, stay inside...
This holy reality, this holy experience. Choosing to be here in...

This body. This body holding me. Be my reminder here that I am not alone in
This body, this body holding me, feeling eternal all this pain is an illusion.

Alive!

In this holy reality, in this holy experience. Choosing to be here in...

This body. This body holding me. Be my reminder here that I am not alone in
This body, this body holding me, feeling eternal all this pain is an illusion.


Twirling 'round with this familiar parabol.
Spinning, weaving 'round each new experience.
Recognize this as a holy gift and celebrate this
chance to be alive and breathing,
a chance to be alive and breathing.

This body holding me reminds me of my own mortality.
Embrace this moment. Remember; we are eternal,
all this pain is an illusion.


Tool - Parabola

*Depois de um grande concerto a música que faltou e que para mim toda ela faz sentido...

sábado, novembro 04, 2006

Black Hole Sun



In my eyes, indisposed
In disguise as no one knows
Hides the face, lies the snake
The sun in my disgrace
Boiling heat, summer stench
'Neath the black the sky looks dead
Call my name through the cream
And I'll hear you scream again

Black hole sun
Won't you come
And wash away the rain
Black hole sun
Won't you come
Won't you come

Stuttering, cold and damp
Steal the warm wind tired friend
Times are gone for honest men
And sometimes far too long for snakes
In my shoes, a walking sleep
And my youth I pray to keep
Heaven send Hell away
No one sings like you anymore

Hang my head, drown my fear
Till you all just disappear

Soundgarden - Black Hole Sun ( Chris Cornell [Stripped Sessions] )

*Mais uma música para recordar...

domingo, outubro 22, 2006

Brighid

Os tempos mudam, o verão acabou e chegam as chuvas.
Eu sento-me a escrever neste meu assento onde nada à minha volta se manifesta, sou ser criador da sua própria realidade e faço deste mundo o meu produto final de criação.
A chuva lá fora não pára, oiço os carros passarem devagar e oiço as gotas de água caírem sobre o chão de pedra do terraço.
As janelas da casa batem com força, o vento sopra desesperado chamando pela terra que o consome.
Tenho as mãos quentes e o coração calmo, bebi um chá de maçã e canela antes de me sentar a escrever, tenho agora o poder da criação em mim e estas palavras sugam toda a minha energia porque nelas deposito a minha força.

Hoje escrevo algo a todas as mulheres e falo sobre o ser feminino.
Quantas vezes não nos ouvimos lamuriar por causa de uma situação? Quantas vezes não ficamos em casa perdidas porque simplesmente nos sentimos fracas demais para nos apresentarmos ao mundo? Quantas vezes não somos confrontadas com alguém que nos faz sofrer, que nos deita abaixo, que nos pisa e nos volta a pisar vezes sem conta? Quantas vezes não tentamos ser vistas por uma multidão para nos sentirmos mais quentes? E quantas vezes não queremos simplesmente uma única palavra de amor?
Todas nós pensamos nisto, por mais fortes que sejamos, por mais frias que tentemos ser, todas nós apresentamos um coração que bate forte sempre que passa por uma criança, que bate sempre que sente o cheiro de uma simples recordação de infância, que bate sempre que revemos o nosso primeiro grande amor, que bate sempre que nos olhamos ao espelho para nos sentirmos mais bonitas para a noite que nos aguarda ansiosa.
Eu só não entendo o nosso egoísmo, o nosso desespero perante uma situação mais difícil, os nossos ciúmes e as nossas invejas.
Somos capazes de ser maldosas, mesquinhas e falsas para com um grupo, para com outras e muitas vezes para com as nossas verdadeiras amigas.
De onde vem toda essa energia que nos guia tanto para o mal?
E se a utilizássemos para erguermos o nosso corpo e fazermos da nossa vida algo mais simples e a dos outros também?
Parece que o nosso universo gira em torno do homem, que este é a razão de todos os nossos infortúnio. Será?
Será que não somos nós mulheres que complicamos aquilo que é tão simples?
Sim, todas nós já sofremos, todas nós já chorámos, todas nós talvez em um minuto das nossas vidas já perdemos a nossa dignidade por causa de um amor, mas será que precisamos de nos trancar em nós próprias, de nos sentirmos indefesas e vulneráveis por causa disso?
Se as mulheres foram feitas para serem mães e sofrer as dores de um parto e se erguerem a seguir para segurar nos braços o seu filho então fomos feitas para aguentar muito mais.
Eu penso que sabemos que temos uma grande força em nós mas que constantemente temos medo de a utilizar porque nos reprimimos a nós próprias.
Com estas palavras só quero que reflictam, posso estar a ser confusa naquilo que digo mas tenho a certeza que muitas que se dêem ao trabalho de me ler vão entender o que digo e vão esboçar um sorriso…
Não pensem nisto como um “manifesto” feminino, só não gosto de pensar que muitas de nós nos fechamos num quarto a chorar pelo tempo que já não volta.
Ergam os vossos olhos e vivam a vida como se fosse o vosso último minuto.
Sintam e utilizem esse sexto sentido para se fortalecerem.

Sara

domingo, outubro 15, 2006

Bang Bang



I was five and he was six
We rode on horses made of sticks
He wore black and I wore white
He would always win the fight

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down

Seasons came and changed the time
When I grew up, I called him mine
He would always laugh and say
"Remember when we used to play?"

Bang bang, I shot you down
Bang bang, you hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, I used to shoot you down

Music played and people sang
Just for me the church bells rang

Now he's gone. I don't know why
And till this day, sometimes I cry
He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down


Nancy Sinatra

segunda-feira, outubro 09, 2006

Enquanto Dormias

É estranho ver-te aí deitado, quando um dia os nossos sonhos se separaram em dois.
Por momentos pensei até que fossem os meus olhos enganados a sofrerem com a tua ausência mas toco-te agora para te sentir e realmente vejo que és tu, deitado nos meus lençóis, de olhos fechados com os pulsos cortados.
Era o teu sangue que eu bebia ontem quando adormeci nos teus braços, era o teu corpo e não o meu sozinho como em todas as outras noites.
Fico agora com os pedaços de pele que me ofereceste na tua busca incessante pela morte e absorvo todas as lágrimas que me caem em cada poro do corpo.

Sara

sexta-feira, outubro 06, 2006

Em Mim Permanecem os Restos de Ti

Em mim permanecem os restos de ti

Entre o espaço que ocupas

Entre a fragilidade dos teus ossos

Em mim estão os teus restos.

Deste corpo tiro as palavras

E de mim tiro o medo que me pesa nos ombros

Escrevo cega para aprender a ver

E escrevo para que me cegues

As lágrimas finalmente fazem sentido.


Sara

sábado, setembro 30, 2006

Fast As You Can

Encontro-te sempre nas minhas memórias, nesse passado que te pertenceu, que nos pertenceu.
Por isso é tão difícil agarrar-me a uns segundos do meu presente.

Ainda sinto vida em mim mas não se compara aquela que eu sentia quando a tua presença era constante.
Não tenho mais lágrimas para te dar, estas ficaram no jardim onde adormeci o meu espírito no teu corpo.
À noite sinto-te mais perto, mais forte, és tu que me acompanhes a morte.
Tento esquecer...
Esquecer-me...
Esquecer-te...
Hoje não me peças para te oferecer o sorriso, morreu no dia 23.

Sara


*Título de Fiona Apple...

quarta-feira, setembro 27, 2006

Other Side


It's not the same without you up here
Can't find my wheels
Your absence is what breeds this fear
Warm breath and all it steals
You can't know how it feels to be in here
All the dark horse fields, befriendin' me
Playin' ain't the same without you here
We've come to hate the golden rule
Cannot seem to make the dots connect
The morning light don't show you near
You can't know what it's like to bleed from here
The blackened world grows white, it goes nowhere
Oooh hoo..
Death ain't the same without you, dear
I make the others run and hide
New york streets seem to make it worse
All this noise inside the quiet
I can't hold on, the weight you bear
My body's broken fast, please lift me up
You can't know what it's like to be inside
The fading melodies can't beat my need
I'm not the same without you here
How can i quit to be there
Sit and stare
Stare..
Begging for a prayer

Pearl Jam - Other Side

Dedicado...



segunda-feira, setembro 25, 2006

Entre Mundos

Entre os mundos que fugiam lá estavam, adormecidos com os dedos entrelaçados.

Somos dois seres perdidos nos dias e nas noites.
Somos fruto da paixão que se esconde nas nossas próprias defesas.
Tenho em mim e guardo-te nos meus olhos e com um simples gesto arranco-te o coração do peito e paro para o sentir pulsar nas minhas mãos.
Dou-te a minha honesta permissão para que me penetres com o corpo, sou a tua amante.
Sou a mulher que te irá fazer render ao doce prazer do pecado que é amar.
Comigo és o aprendiz porque te irei ensinar a escolher, porque te irei desarmar e fazer com que me deixes que eu entre em ti.
Muito tempo se irá passar e neste corpo que te estende as mãos e os lábios ficarás preso.
Nunca irás esquecer, nunca irás tecer comparações, serei sempre a tua amante, a tua eterna amante...
Um dia nos afastaremos mas o prazer de te ter amado irá permanecer em mim, em nós, guardado na nossa carne e sangue.
Numa noite de chuva tomarás uma decisão e até lá espero, aguardo para ver o teu coração pulsar nas minhas mãos.

Sara

domingo, setembro 24, 2006

Eu sou a tua outra face

Eu era a chama incolor do teu sopro, o teu sopro revolvendo o mundo. Adoptei a tua aparência visível e através de ti deixei a minha marca no mundo. Glorifiquei a minha chama em ti.

Este é o livro que tu escreveste
E tu és a mulher que eu sou


Anaïs Nin

em a Casa do Incesto

segunda-feira, setembro 18, 2006

Clandestino

Algo surgiu na noite em que duas mãos se cruzaram entre si mesmas e dois corpos se presentearam com o amor.

Em todas as noites, de todos os dias, se sentavam no mesmo bar de Lisboa.
Tocavam-se discretamente com o olhar, trocavam palavras dentro de sim e conversavam com o corpo.
Um simples corredor os separava e dois copos vazios em cima das mesas pediam mais um pouco de moscatel.
Ele escrevia com o som das palavras a tocarem-lhe nos lábios e ela esperava, observando as paredes de um bar clandestino assinadas pelo tempo.
Anos se passaram, copos se beberam, cigarros se fumaram e eles continuaram, olhando-se e desesperando por um olhar que dissesse: “não quero estar só…”
Até ao dia em que o som de uma música a despertou, fechou os olhos ainda cega e ouviu a sua voz pela primeira vez.
Ele abriu o olhar e seguiu-a.
A música parou e enquanto o mundo voltava a acordar, beijaram-se junto ao fogo, partilharam o respirar do tempo e sentaram-se nesse bar clandestino onde se sentiram viver.

Sara

sábado, setembro 09, 2006

Coffee and Cigarrettes

Entrava no café onde passava uma parte dos meus sonhos
Caminha rápido sem forçar o chão contra si
Sentou-se.
Em mim sobra apenas um espaço onde não distingo passado presente futuro
Sobra um espaço onde quero estar

Tirei o isqueiro do bolso
Pousei-o em cima da mesa do café e esperei
Olhei em volta à procura na esperança de a encontrar atrás do balcão
Parei o momento e forcei-me a respirar fundo quando ela entrou
Dirigiu-se a mim e pediu-me lume
Em cima da mesa lá estava à espera, ergui a mão e acendi-lhe o cigarro
Olhei-a e senti o corpo apertar
Virou-me costas e sentou-se na mesa ao lado.

E nesse momento o meu corpo não chegava
Quero-te
E não era um pensamento era uma força
Fumo mais um cigarro e desvio o olhar dela
Tento e desisto de tentar
Pego na mão dela e arrasto-a para mim

Era nítido no seu olhar que não me queria
Mas mesmo assim tentei e não desisti enquanto não lhe retirei o sabor amargo dos lábios
Beijei-lhe a mão que arrefeceu com o meu toque
Ofereci-lhe um instante para que o seu olhar a traísse
E dei-lhe a conhecer o desespero.

Já não queria esperar
Queria agora já neste momento e aqui
Não existia tempo e era isso que lhe dizia ao ouvido
Amanhã não existe agora quero-te!
Ele respirava de e para os seus cabelos depois no seu ouvido depois mais perto mais perto...
E nesse momento não pensava e não queria pensar.

Olhei o relógio pregado na parede do café
Eram 23horas, estava atrasado, tinha alguém à minha espera
Ela vacilou e olhou em redor para me dizer baixinho
Sou tua
Quero-te aqui e agora num espaço onde possa encaminhar a minha loucura
Baixinho mais uma vez....
Sou tua...

Eu sei
Disse sem pensar como sempre deve ser
Abracei-te contra mim sentia o teu corpo
O meu corpo
A tua boca
O tempo tinha parado
Não havia café nem pessoas e o fumo à nossa volta servia-nos de barreira imaginária
Linha do equador
Quero sair daqui contigo
Eu sei, disseste ainda mais baixo
Leva-me

As portas fecharam-se
Chovia lá fora,
Percorremos as ruas a correr até chegarmos a tua casa
Entrei atrás de ti e olhei-te a cintura, os braços longos cruzando-se no peito molhado
Rodaste a chave e encostei-te a um canto beijando-te sofregamente
Senti-te o coração e reuni todas as minhas forças para te tocar no rosto
Eras feita de pedaços de mim.

E ao mesmo tempo tudo o que me faltava
A minha mão no teu rosto devagar os teus olhos curiosos a curva perfeita do teu nariz a minha mão mais devagar os teus lábios...
E beijo-te de novo porque não tenho voz
Não preciso de voz
Só tu importas agora e eu sei que percebes pelo teu olhar
Estávamos à porta da tua casa quando te beijei o pescoço e as mãos e todo o espaço que separa a tua voz da tua voz

Deitei-te no meu peito
Suavemente disseste-me:
Diz-me o teu nome...
Não respondi, não quis e olhei-a
Beijei-a, trouxe-a de volta a mim e o seu doce perfume espalhou-se pelo ar
Reparei de novo nas horas, tinha alguém à minha espera
Arrumei o corpo, deixei-te sozinha sem nome
E corri até ao café onde um isqueiro me esperava para acender mais um cigarro.


Sara Almeida com M.Tiago Paixão


Lisboa 06.09.06



*Mais um texto escrito em colaboração com M.Tiago Paixão.

*Obrigada...

terça-feira, setembro 05, 2006

O Concerto



She lived on a curve in the road, in an old tar-paper shack

On the south side of the town, on the wrong side of the tracks
Sometimes on the way into town we'd say:
"Mama, can we stop and give her a ride?"
Sometimes we did but her hands flew from her side
Wild eyed, crazy Mary

Down along the road, past the Parson's place
The old blue car we used to race
Little country store with a sign tacked to the side
Said "No L-O-I-T-E-R-I-N-G allowed"
Underneath that sign always congregated quite a crowd

Take a bottle, drink it down, pass it around
Take a bottle, drink it down, pass it around
Take a bottle, drink it down, pass it around

One night thunder cracked mercy backed outside her windowsill
Dreamed I was flying high above the trees, over the hills
Looked down into the house of Mary
Bare bulb blown, newspaper-covered walls, and Mary rising up above it all

Next morning on the way into town
Saw some skid marks, and followed them around
Over the curve,through the fields, into the house of Mary

That what you fear the most, could meet you halfway
That what you fear the most, could meet you halfway
Take a bottle, drink it down, pass it around
Take a bottle, drink it down, pass it around
Take a bottle, drink it down, pass it around

Pearl Jam - Crazy Mary

P.S- Grande concerto! A quem não foi o meu sincero lamento! :)

sexta-feira, setembro 01, 2006

Última Noite

Abri-te as portas da minha casa e bati com elas quando entraste, selei o trinco da fechadura e não te deixei mais sair.
Olhaste nos meus olhos e contra a parede me empurraste e me gritaste aquelas palavras que tanto sentido faziam na altura.
Implorei, submissa e dependente de ti, que não me deixasses, que me perdoasses.
Riste-te na minha cara e vasculhaste a minha casa à procura do que te faltava para te ires embora.
Agarrei no teu braço ainda com a esperança de que o meu toque te fizesse mudar de ideias, ainda a pensar que te poderia mudar o coração. Enganei-me e dei-te mais um motivo para me gozares.
Observei o teu corpo enquanto corrias à procura, para depressa me deparar com o teu olhar e ver aquilo que iria perder em pouco mais que uma hora.
Ainda senti aquele fogo ao lembrar-me de quando me tocavas e me declamavas ao ouvido palavras de amor eterno, ainda vivi esses momentos mesmo perto do fim.
Dirigiste-te para a porta mas só eu tinha a chave e envolvi-te nesse jogo estúpido que é a minha alma, tentei seduzir-te e levar-te a pensar que só eu é que tinha o poder, que nada poderias fazer a não ser envolveres-te nos meus braços. Por breves instantes consegui captar a tua atenção, foi fácil sabendo que tu não gostavas do papel submisso que eu tantas vezes representava e trazendo de volta aquela que tu tinhas amado um dia.
Dei-te as chaves e fechei as portas atrás de mim, sorrindo.


Sara

segunda-feira, agosto 28, 2006

L de Pecado

Fotografei o teu rosto e persigo o teu cheiro por entre essas vidas que passam

Piso o chão de pedra que construiste para nós

E na tentativa forçada de te escrever estas palavras pinto as mãos com a tinta da caneta

Esperas-me agora numa qualquer esquina em Lisboa


há uma resposta que quer o teu sabor

que o conhece de outras vidas

que o reconhece

numa cidade inventada por nós e por alguém e por uma fotografia incandescente que invade a memória

que não é memória porque é um relatório presente

que se escreve a todo o instante e se inscreve em mim ou em ti


Queimas-me o coração e invades-me o espaço que só a mim me pertence

Encontro-te o olhar

nessa esquina que nos pertence

Acendes um cigarro e no meio do fumo que se enche no teu peito cansado

procuras um instante, um momento, um conforto

Digo-te: "não me procures mais..."


olho para o lado para um homem que passa que sorri que se aproxima

toca no meu ombro e diz que não devo preocupar-me que aquela afirmação não o é de facto que escutava a conversa por acaso que não me preocupe

agradeço dou-lhe um cigarro e procuro-te de novo

olho-te

olho-te de novo

entendo todos os teus pensamentos e sinto um aperto que não consigo localizar

prefiro assim


Ofereceste-me um sorriso e por entre esse sorriso vejo-te a alma

Tiro-te o poder e dou-te o silêncio

Estendes-me a mão e tocas-me no rosto

Baixo os olhos não permitindo a tua entrada

E mais uma vez, nesse momento em que o sino da igreja toca ao fundo, quebras a minha frieza e ergues o meu olhar


devagar como sempre deve ser

toco o teu rosto

tremo um pouco ao passar nos nos teus lábios

consigo um sorriso

e digo-te ao ouvido que não deves preocupar-te

não agora

fecha os olhos


Sequei os lábios ao ver-te tremer

Apertei o coraçao ao senti-lo disparar com a força com que me tocavas

Sussuras-me palavras silenciosas, por entre os gritos que me atormentam

Fecho os olhos e sinto-te vigiar-me


sinto-te

sinto-te de novo

ouço tudo o que está dentro de ti

pego na tua mão

abro-a

beijo-te

espero que abras os olhos em silêncio


Não abri o meu olhar enquanto me tocavas

Fiz de conta que não entendia

Trouxeste de volta esse cheiro a pecado

Queria dizer-te mais uma vez: "Não te quero..."

E porquê esse tão angustiado desejo?

Virei-te as costas na esperança que me deixasses fugir

Agarras-me o braço

Abres-me os olhos

E contemplas o teu mundo através de um simples corpo


Agora, escrevo-te em verso e mancho estas páginas enquanto ainda me esperas naquela esquina onde acendi o último cigarro.


23 Agosto 2006


Sara Almeida com M. Tiago Paixão



*Versão original do texto anterior, escrito em parceria com o M. Tiago Paixão.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Nessa Esquina

Fotografei o teu rosto e persigo o teu cheiro por entre essas vidas que passam
Piso o chão de pedra que construíste para nós
E na tentativa forçada de te escrever estas palavras pinto as mãos com a tinta da caneta.
Queimas-me o coração e invades-me o espaço
Encontro-te o olhar nessa esquina de Lisboa que nos pertence
Acendes um cigarro e no meio do fumo que se enche no teu peito cansado procuras um instante, um momento, um conforto.
Digo-te: "não me procures mais..."
Ofereces-me um sorriso e por entre esse sorriso vejo-te a alma
Tiro-te o poder e dou-te o silêncio.
Estendes-me a mão e tocas-me no rosto
Baixo os olhos não permitindo a tua entrada
E mais uma vez, nesse momento em que o sino da igreja toca ao fundo, quebras a minha frieza e ergues o meu olhar.
Seco os lábios ao ver-te tremer,
Aperto o coração ao senti-lo disparar com a força com que me tocas
Sussurras-me palavras silenciosas por entre os gritos que me atormentam
Fecho os olhos e sinto-te vigiar-me
Não abro o meu olhar,
Faço de conta que não entendo
Trouxeste de volta esse cheiro a pecado
Queria dizer-te mais uma vez: "Não te quero..."
E porquê esse tão angustiado desejo?
Viro-te as costas na esperança de me deixares fugir
Agarras-me o braço
Abres-me os olhos
E contemplas o teu mundo através de um simples corpo.
Agora, escrevo-te em verso
E mancho estas páginas enquanto ainda me esperas naquela esquina onde acendeste o último cigarro.


Sara



*Aqui está só a minha versão de um texto escrito por mim e pelo Mário (www.qualqueroutrotempo.blogspot.com) e se ele me der permissão publicarei depois a versão dele. É com prazer que o faço.
Muito obrigada pela experiência de escrever estas palavras a dois.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Mais Uma Carta Por Enviar

Sabes, desde aquele dia tudo mudou.
Estranho... Pensar que só após a tua morte eu me começo a sentir completa e sem aquele nó na garganta.
Tantas coisas tenho para te contar, tantos dias, horas, meses, se passaram e eu continuo a ter uma vontade sórdida de te telefonar ou visitar e contar-te a vida que ando a levar.
Estranho linda... Estranho ainda te sentir aqui tão perto, como se de facto estivesses presente, como se o teu corpo desejasse mais uma vez um abraço.
Não te consigo chorar ou talvez não queira. É tão mais fácil virar costas ao passado e fazer uma nova vida como se nunca te tivesse conhecido, impossível... Não desejo esquecer o teu rosto, o teu sorriso quando te contava mil e uma histórias acerca do meu coração... Não quero linda, não te quero guardar no baú onde guardo todas as minhas memórias, quero-te presente no meu olhar, quero-te presente nos meus pensamentos e na minha alma.
A minha vida está a ter um rumo. Irónico não achas?!
Com a tua morte conheci a dor, conheci a estranha felicidade de estar sozinha e vi e senti o quão belo é viver e aproveitar cada momento, cada segundo a saborear o presente.
Oh linda... Quantas vezes não falámos em conhecer novas pessoas, novos mundos, ter diferentes perspectivas de vida?! Finalmente estou a viver Joana... Finalmente consigo sentir que sou eu que estou aqui e não um mero reflexo de outra mulher.
Minha amiga... Obrigada pela ajuda!

Sara

quinta-feira, agosto 03, 2006

Peço... Silêncio...

Vivo há muitos anos longe daqui, deste mundo, desta época, deste tempo.
Fui mulher, fui amante, fui mãe, até ao dia em que me tornei eu própria pela morte de todos aqueles que eu amava.
Tenho tatuados no meu corpo todos os seus nomes.
Em cada linha, em cada traço, em cada marca está um beijo, um nome, um sonho.
Tudo isso deixei preso a um corpo que já não sente, a um corpo frio que se deitou sobre lençóis brancos debaixo de terra.
Agora peço o silêncio, peço que me leiam em voz baixa, que me oiçam cantando ao som do vento forte que sopra e que façam dessa doce melodia o silêncio da alma.
Oiçam a voz do tempo que passa e sintam as mãos arderem com o fogo que queima o mundo.

Sara